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Sinopse: Ao iniciar a leitura deste livro, logo percebemos que o autor é um leitor ávido e simpático às indagações e devaneios existenciais. Contudo, conforme nossos olhos percorrem as linhas e histórias que costuram experiências reais à literatura, percebemos também que essas narrativas são muito mais do que resenhas literárias. Gabriel Soares amarra a erudição dos autores clássicos a um tom informal que logo nos remete às idiossincrasias da cidade pequena, e nos traz o espírito de quem contempla a vida como um contador de causos, mas com ares cosmopolitas, de quem percorreu o mundo por si mesmo e através das palavras dos autores que o acompanham em sua jornada. É como se reencontrássemos um amigo que há muito não víamos e ouvíssemos suas histórias de viagens e leituras no tempo de um café da tarde.

Editora: Dobradura | Páginas: 355 | Ano: 2018 | Preço: R$39,90 | Cedido Pelo Autor


“Nós estamos presos nessa enfadonha liberdade do bom senso social.”

Já faz algum tempo que recebi este livro do autor, mas acabei demorando um pouco para iniciar a leitura e, após terminá-lo, precisei de um de tempo para refletir sobre como escreveria esta resenha. O fato é que esse livro me tirou da zona de conforto literária na qual estava, e queria conseguir expressar o quanto isso foi enriquecedor para mim.

Estou muito mais acostumada aos livros de fantasia, ficção científica e poesia, e apesar de ler crônicas e autores clássicos muitas vezes, este livro me trouxe um tipo de literatura com o qual eu nunca tinha me deparado. Gabriel Soares nos apresenta um livro de crônicas que oferece todas as características para encantar um amante da literatura e da filosofia.

         Nas crônicas, o autor traz relatos de viagens feitas pelo mundo, sempre aproveitando para entrelaçar a elas algo que encontrou ao ler um livro. Dessa forma ele discute, de modo informal, ideias presentes em obras de autores e filósofos clássicos, sempre contextualizadas com algo presente em seu dia-a-dia.


Ao passar pela Argentina, pelo Chile ou pelos Estados Unidos, conhecemos um pouco sobre a literatura de Fiódor Dostoiévski, Albert Camus ou Thomas Mann. Em meio a conferências, cafés e livrarias de São Paulo o pensamento pode se voltar para questões discutidas por Platão ou Epicuro. E ao narrar sobre Birigui, sua cidade natal no interior de São Paulo, o autor nos faz pensar em qual seria a essência da cidade pequena.

Portanto, Cidade Pequena não é um livro exclusivamente sobre cidades pequenas. É um livro que apresenta aquilo que pode ser encontrado em qualquer cidade: o cotidiano e os questionamentos que ele propõe, independente do lugar em que estivermos. O autor nos mostra isso por meio de uma linguagem despretensiosa e um texto fluido, como uma conversa entre amigos.

         Durante a leitura, podemos encontrar temas como a biologia, o hedonismo, os direitos dos animais, o materialismo filosófico, o atomismo e também assuntos muito discutidos na atualidade, como a taxação de grandes riquezas, direitos humanos, entre outros. No entanto, é perceptível que a maioria das crônicas do autor trabalha muito com a discussão de temas existencialistas, que questionam a importância do ser humano no mundo. Afinal, será que nossa espécie é realmente importante? Será que a vida tem sentido?


O autor demonstra grande convicção e embasamento filosófico em seus argumentos e, particularmente, concordei com ele na maior parte das questões. Entretanto, devo citar que o tema de uma das crônicas é a religião e, neste aspecto em especial, imagino que leitores religiosos poderão não se identificar com o ponto de vista do autor, abertamente ateu. Pessoalmente, também tive leve discordância com a questão no livro, mesmo sendo uma pessoa que não segue religiões.  

        Entretanto, da mesma forma que o livro permite repensarmos e concordamos com os argumentos do autor sobre diversos temas, também permite que você discorde de tudo o que foi dito. Acredito que o ponto aqui não seja tentar convencer o leitor de algo, mas fazer com que ele se depare com uma perspectiva que não está acostumado a encarar.


O livro faz uso de uma dose de humor irônico em crônicas que frequentemente exaltam a importância da ciência, da arte e da literatura. Seja nos autores clássicos mencionados ou na própria história de vida de Soares, que logo descobrimos ser compositor em uma banda e dono de uma livraria (conheça mais sobre ela aqui).

        Particularmente, é um livro que me motivou a querer conhecer mais títulos literários, principalmente de autores existencialistas. Sempre tive interesse por filosofia, mesmo que meu conhecimento nessa área seja ainda muito básico, e esse livro surge como um caminho a alguém que quer mergulhar em um tipo de leitura mais questionadora. Indico muito!

Sinopse: Quando o falido capitão Abner Marsh recebe uma proposta de sociedade do rico e sinistro aristocrata Joshua York, ele até chega a desconfiar que algo está errado. Mas nada que a possibilidade de receber milhares de dólares em ouro e construir o barco dos seus sonhos não o possa fazer mudar de ideia. Assim surge o Fevre Dream, o melhor e mais potente barco de todo o Mississippi. Uma embarcação magnífica que, ao navegar pelo rio, vai deixando pelo caminho uma coleção de histórias sombrias. Movido pela força do vapor, o sonho do capitão pode se transformar no maior pesadelo da humanidade. 

Editora: LeYa | Páginas: 363 | Ano: 2015 | Preço: R$ 37,20


“Todo o gado que se preza adora a luz do sol.”

Este ano comecei a me interessar mais pela temática de vampiros, o que me fez querer ler esse livro de George R. R. Martin, um autor pelo qual eu já tinha grande admiração devido à série As Crônicas de Gelo e Fogo. O que encontramos nesse livro, porém, é algo diferente do cenário com o qual os leitores das Crônicas já estão acostumados. E mesmo assim, isso é maravilhoso.

A história de Sonho Febril se inicia no ano de 1857, na cidade americana de Saint Louis. Abner Marsh é capitão e dono de uma frota de barcos a vapor, porém tem enfrentado dias difíceis e atualmente só conta com um barco para seus transportes. Certo dia, um estranho homem aparece e lhe oferece dinheiro para construir o barco de seus sonhos em troca de uma parceria na embarcação de Abner. 

Este homem é o misterioso Joshua York, um sujeito educado, elegante e de hábitos sombrios. Mesmo ficando meio desconfiado, Abner é um homem simples, cujo sonho sempre foi vencer uma corrida de barcos, então acaba aceitando a proposta. A partir de então, eles constroem o Fevre Dream, um dos barcos mais rápidos e belos do rio Mississippi.

O negócio de transportes fluviais de Abner começa a prosperar e ele se anima muito com o sucesso. Com o passar dos dias, sente que Joshua não é mais apenas um sócio, mas também um amigo. Os dois se tornam uma bela dupla como capitães do Fevre Dream, mas Abner ainda não sabe lidar com todos os segredos que Joshua esconde e está sempre intrigado com ele.


Esse é um livro que nos apresenta dois núcleos de narrativa, então conforme vamos acompanhando o que acontece com Abner, paralelamente somos apresentados a outro personagem, cujo nome é Sour Billy Tipton. Billy vive em New Orleans, trabalhando em uma fazenda como empregado de Damon Julian, um lorde falido.

Damon é um homem bonito e refinado, porém se encontra em uma situação de dificuldade financeira. Logo nos primeiros capítulos, Damon toma uma atitude que nos revela o fato dele ser um vampiro e, mais do que isso, um mestre entre os vampiros. Billy, mesmo sendo humano, sabe disso desde o começo e sempre se manteve como fiel empregado de Damon.

O conflito do livro passa a acontecer quando os dois grupos se encontram. É interessante observar como as personalidades desses personagens são diferentes e como cada um têm suas próprias motivações. Às vezes vemos que alguns personagens pensam da mesma forma diante de uma situação, mas suas atitudes perante a ela são completamente opostas. 


Uma coisa que gostei muito foi a maneira como a mitologia dos vampiros foi alterada pelo Martin de forma cuidadosa. Ele faz questão de explicar tudo com detalhes, às vezes citando fatos históricos para dar veracidade a esse tipo de vampiro que criou. Inclusive, uso a palavra “vampiro” para esses seres, mas como um dos próprios personagens diz, esse conceito é muito limitado para explicar o que essas criaturas são na narrativa.

O livro também nos dá uma boa visão de como eram os Estados Unidos no século XIX, principalmente para os moradores das cidades de Saint Louis, New Orleans e suas proximidades. A partir desse contexto, algo que é lembrado no livro também é a escravidão dos negros no país. Inclusive o autor abordou os temas da escravidão e do racismo de forma bem criativa.

Gostei muito dos personagens da narrativa, acho que eles têm bastante profundidade. Posso dizer que há dois vilões nessa história, e na minha perspectiva os dois foram os personagens mais impactantes do livro. Um deles por ser muito frio e imprevisível e o segundo por ser um personagem completamente asqueroso, que chega a causar repulsa. 


O único motivo de não classificar Sonho Febril com cinco estrelas é, na verdade, o começo. Mesmo gostando do estilo de escrita detalhista do Martin, achei o início desse livro um pouco lento e arrastado. O autor quer nos dar uma boa noção do funcionamento dos barcos a vapor e dos trajetos dos rios pelos quais Abner navega e acho que essa parte acabou se tornando longa demais.

Se você se interessa por barcos, imagino que irá achar esse início da história muito interessante. Caso contrário, talvez você precise de um pouco de determinação na leitura. Mas depois de ultrapassar a página 100, eu não conseguia mais largar o livro, pois é cheio de momentos de ação. A edição do livro também ajuda, com fonte confortável para a leitura e páginas amareladas. 




Sinopse: Em um Brasil retrofuturista onde serviçais robóticos e geringonças apocalípticas coexistem com o sobrenatural, o jornalista Isaías Caminha desembarca em Porto Alegre para cobrir a prisão do infame assassino Dr. Antoine Louison, aprisionado no lendário asilo São Pedro para Psicóticos e Histéricas. Na noite anterior à sua execução, porém, o facínora escapa, desaparecendo como um fantasma de folhetim. À medida que Isaías embrenha-se no mistério do desaparecimento de Louison, passa a questionar seus próprios valores, forja amizades improváveis e junta-se ao Parthenon Místico – sociedade secreta que reúne o imortal satanista Solfieri de Azevedo, o cientista louco Dr. Benignus, a médium indígena Vitória Acauã e os aventureiros do oculto Sergio Pompeu e Bento Alves.  

Editora: LeYa | Páginas: 303 | Ano: 2014 | Preço: R$ 26,50


“Sobreviverás ao abismo da tua própria loucura?”

Logo de início, devo dizer que este livro me surpreendeu muito e acredito que durante os próximos meses estarei sempre o indicando em qualquer ocasião em que eu veja uma oportunidade. “A Lição de Anatomia do Temível Dr. Louison” é o primeiro livro da série “Brasiliana Steampunk”, e o único publicado até o momento.

Sempre gostei do subgênero steampunk (retrofuturismo), por isso quando descobri a existência de um livro que faz uso desse cenário escrito por um autor nacional, tive a certeza de que eu deveria lê-lo. Enéias Tavares foi grandioso em conseguir trazer todos os aparatos tecnológicos como robôs à vapor e zepelins para as terras brasileiras, mas isso foi apenas o começo.

A história do livro se passa em 1911, quando um jovem jornalista chamado Isaías Caminha chega à Porto Alegre. Sua tarefa é escrever uma reportagem sobre o assassino Antoine Louison, acusado de matar cruelmente oito renomados aristocratas da cidade. Já sentenciado à morte, Louison aguarda a execução de sua pena no asilo São Pedro para Psicóticos e Histéricas. 


Antes de escrever a reportagem, Isaías busca conhecer mais sobre o acusado, o que faz com que se surpreenda com a personalidade do doutor. Louison é um homem extremamente elegante, culto e engajado em projetos sociais. Sua inteligência e sensibilidade impressionam o jornalista de tal forma que ele passa a se questionar se aquele homem seria realmente um assassino.

Louison jamais negara os crimes dos quais fora acusado. Pelo contrário, diversas provas depunham contra ele, inclusive os vários desenhos que o próprio havia feito expondo os órgãos de suas vítimas em uma galeria de arte. Porém, enquanto Isaías se depara com tantas dúvidas, acaba conhecendo um estranho grupo de pessoas que se autodenomina Parthenon Místico.

O Parthenon é uma sociedade secreta composta pela médium Vitória Acauã, o imortal Solfieri de Azevedo, o excêntrico cientista Dr. Benignus e os aventureiros Sergio Pompeu e Bento Alves. No momento, todos eles têm um único objetivo: libertar Louison. E quando o prisioneiro desaparece do hospício, resta uma dúvida a Isaías e a nós: quem está certo nesta história?


Assim como Isaías, me vi diante de alguns conflitos morais durante a leitura, e não poderei explicá-los sem dar spoilers, mas tudo o que posso dizer é que esse livro nos mostra uma escolha perigosa entre o que é certo e o que é justo. A obra gera perguntas ao leitor: ele realmente matou as pessoas? Por que ele faria isso? Por serem vítimas aristocratas, estaria ele em favor dos pobres?

Essas dúvidas permeiam a narrativa e o final é surpreendente. Com o avançar do livro, o autor vai nos dando algumas pistas sobre os mistérios que envolvem o doutor. O livro todo é narrado por meio de cartas e gravações que os personagens enviam uns aos outros, o que faz com que sejamos capazes de perceber suas diversas personalidades e o que cada um sabe sobre Louison.

Por se tratar de uma história que se passa em 1911, Tavares fez questão de utilizar em seu texto a mesma grafia de palavras usada na época, o que certamente deu um encanto a mais à narrativa. Por exemplo, você não vai encontrar uma menção à fotografia neste livro, mas certamente vai encontrar um “registro photoeléctrico”. 


Por fim, não poderia deixar de mencionar os personagens do livro. Isaías Caminha, Solfieri, Vitória Acauã, Simão Bacamarte... Você reconhece esses nomes? A obra de Tavares é criada em torno de personagens clássicos da literatura nacional que agora fazem parte do domínio público, criações de Álvares de Azevedo, Machado de Assis, Lima Barreto e outros grandes autores.

Admito que boa parte dos livros em que estes personagens aparecem originalmente ainda não li, mas um dos objetivos do autor também era causar a curiosidade para que mais pessoas lessem esses clássicos e conhecessem os personagens que inspiraram seu livro. E comigo isso deu certo, pois já quero procurá-los para próximas leituras.







Sinopse: Quando Arthur Rimbaud escreveu à sua irmã Isabelle “A vida é uma miséria sem fim. Por que existimos?”, ele tinha 37 anos e apenas mais alguns meses de vida. Mas que importância tem isso para alguém que viveu muitas vidas em uma só: uma vida de aluno precoce, de adolescente rebelde, uma vida efêmera de poeta genial, de amante de Paul Verlaine, uma vida de grande viajante, de negociante na Abissínia, uma vida de estropiado, de aleijado, errando pelos desertos da África Oriental, uma vida de tragédia grega, de verbo e de silêncio? Vida e obra se confundem para formar a incrível saga de Arthur Rimbaud na terra. Esta, que é uma das maiores aventuras poéticas de todos os tempos, é reconstituída nesta brilhante biografia.



Editora: L&PM | Páginas: 221 | Ano: 2011 | Preço: R$ 14,87


“On n’est pas sérieux quand on a dix-sept ans.”


Ninguém é sério aos dezessete anos. Essa frase, que dá início ao poema “Romance”, define com perfeição a personalidade do jovem e boêmio Arthur Rimbaud. Era natural que estivesse em constante mudança, que não gostasse de monotonia, que buscasse novas coisas para aprender e lugares para conhecer.

Rimbaud é certamente um dos maiores poetas franceses que já existiu. Por esse motivo, é surpreendente que seja possível encontrar sua vida toda descrita no curto espaço de 221 páginas. Mas Jean-Baptiste Baronian fez um grande trabalho nesta biografia, sendo capaz de narrar toda a trajetória do rapaz e incluir em sua narrativa diversos poemas escritos por Rimbaud, além de cartas que marcaram importantes momentos de sua vida.

Quando falamos sobre poesia estrangeira, há muito o que considerar, mas o principal aspecto de preocupação para muitos é certamente a tradução. Se a tradução já é um elemento de grande importância no texto em prosa, na poesia é ainda mais. Isso acontece porque a tradução precisa conciliar no texto poético tanto os significados empregados pelo autor quanto o ritmo utilizado no poema.


          O trabalho da tradutora foi muito eficiente nesse aspecto, pois a edição conta com os poemas originais em francês e uma tradução que respeita a métrica e o estilo de Rimbaud. Além disso, a obra também nos apresenta várias notas de rodapé que nos explicam muito sobre elementos citados e sobre o contexto do século XIX vivenciado pelo poeta.

Todos esses artifícios foram usados para narrar com detalhes a vida de Rimbaud, um garoto que nasceu no interior da França e que, desde criança, já demonstrou grande talento na poesia. Rimbaud foi um poeta simbolista e em sua obra encontramos muitos poemas que carregam as características desse movimento, tais como elementos metafísicos, místicos, misteriosos e românticos.

Além disso, durante a adolescência também escreveu alguns poemas inspirados pela Comuna de Paris, a primeira tentativa de implantação de um governo socialista. Durante esse período, contou com a ajuda de um professor e amigo que o orientou a conhecer profundamente os trabalhos dos grandes poetas da época. 


Foi desta forma que conheceu a obra de Paul Verlaine, com a qual se encantou logo de início. Em uma oportunidade que tiveram para se encontrar em Paris, Rimbaud e Verlaine perceberam então que tinham muito em comum: o estilo poético, as opiniões políticas e, principalmente, uma profunda admiração um pelo outro.

Os dois passaram a manter um relacionamento amoroso, apesar de Verlaine já ser casado. Porém logo as dificuldades financeiras, as discussões e os boatos fizeram com que o relacionamento dos dois desmoronasse, sendo definitivamente rompido com um acesso de fúria de Verlaine, que disparou dois tiros contra Rimbaud antes de ser levado à prisão.

A partir de então, a vida de Rimbaud se tornou uma grande busca pela própria identidade. Em um curto espaço de tempo, seu amor pela poesia foi substituído por novos interesses, como as viagens, o mundo dos negócios e o encanto das fotografias. Diversos foram os sofrimentos pelos quais passou durante a vida adulta, mas sempre esteve disposto a lidar com eles para descobrir algo novo.


O que impressiona na vida de Rimbaud é o fato dela ter sido tão curta e tão produtiva. O poeta não apenas falava francês, mas também inglês, alemão, árabe, russo e italiano. Viveu na França, na Inglaterra, na Alemanha, na Itália, isso sem falar do período em que trabalhou para um circo viajante. Também tocava piano e seu conhecimento pelo território da África Oriental se tornou tão profundo que ele foi capaz de publicar diversos textos científicos sobre regiões que nunca haviam sido exploradas por povos que não fossem as tribos nativas.

Ao realizar a leitura desse livro, me emocionei muito em certos momentos, principalmente ao ler sobre a vida adulta do poeta. Suas transformações são constantes e, talvez devido ao próprio estilo melancólico de se expressar, as cartas que troca com a mãe, a irmã e Verlaine são muito intensas e dramáticas. Como leitor, é possível que sejamos capazes de sentir todas as angústias pelas quais ele passa em períodos de dificuldade.

O livro se apresenta em uma edição pocket, que apesar de simples, é muito prática. Mesmo que apresente um formato pequeno, a fonte é de tamanho agradável para a leitura. Achei a versão bem completa, pois ao fim da obra ainda encontramos anexos com uma cronologia da vida de Rimbaud além de muitas referências de outras obras sobre o poeta.




Sinopse: Quem é que nunca desejou conhecer ao vivo os personagens de seus livros prediletos? Mo, além de exímio encadernador, tem uma habilidade insólita: ao ler em voz alta, dá vida às palavras, e coisas e seres das histórias surgem ao seu lado como que por mágica. Numa noite fatídica, quando sua filha Meggie ainda era praticamente um bebê, a língua encantada de Mo trouxe à vida alguns personagens de um livro misterioso chamado “Coração de Tinta” – e acabou mandando para lá sua mulher. Meggie não conhece essa história, até que um estranho visitante aparece no meio da noite. Com roupas gastas como as de um artista de circo, os dedos cobertos de fuligem, e no ombro um bicho de estimação com pequenos chifres pontudos, ele não é um estranho para Mo, que o convida a passar a noite na casa – os dois têm muito a conversar. Quando na manhã seguinte Mo avisa à filha que eles precisam fazer imediatamente uma viagem, ela entende que algo muito errado está ocorrendo. É o começo de uma aventura perigosa, cheia de acontecimentos fantásticos e reviravoltas imprevistas, que vai mudar para sempre a ideia que Meggie tem sobre os livros e suas histórias. Primeiro volume da trilogia “Mundo de Tinta”.



Editora: Companhia das Letras | Páginas: 455 | Ano: 2006 | Preço: R$ 34,30


“Por acaso você sabe como a sua história termina?”

Coração de Tinta é o primeiro livro da trilogia Mundo de Tinta. Esse volume nos conta a história de Meggie, uma garota que mora com seu pai, um encadernador de livros. Tanto Meggie quanto o pai adoram livros, mas a garota nunca entendeu os motivos dele jamais querer ler histórias em voz alta para ela, até o dia em que um estranho chega na casa dos dois.

Na verdade, o rapaz é um velho conhecido de seu pai e, por mais que o dono da casa tente evitar a presença do visitante, o recém-chegado acaba sendo o responsável por uma grande revelação na vida de Meggie. Graças a ele, a garota acaba descobrindo que seu pai possui o incrível dom de tirar dos livros tudo aquilo que lê em voz alta.

Mas essa novidade não é tudo. O excêntrico rapaz, chamado Dedo Empoeirado, também lhes traz uma terrível notícia: um dos maiores vilões que havia sido tirado de um livro agora está à procura do pai de Meggie. Inicialmente, os personagens não compreendem os motivos disso, mas logo percebem que precisam fugir e procurar um esconderijo.


Há diversas coisas que gosto neste livro, mas há algo que aparece como um ponto negativo para mim: o vilão. Capricórnio, como é chamado o inimigo de Meggie e seu pai, é um líder que comanda um grupo de homens treinados para matar às suas ordens. Ele é uma figura que impõe medo aos habitantes do vilarejo devido às simbologias que usa para se assemelhar ao Diabo, mas é difícil entender a razão pela qual seus próprios seguidores o respeitam.

Mesmo sentindo falta de um pouco de profundidade em Capricórnio, percebi o quanto a autora fez um ótimo trabalho quanto a isso em outros personagens, dos quais gostei muito. Um deles é Elinor, a tia-avó de Meggie. Acredito que todas as pessoas que gostam de livros deveriam ler Coração de Tinta, pois ele é como um relato de amor à literatura e isso é principalmente manifestado por essa personagem.

Elinor trata seus livros como tesouros e sempre se lembra de uma história ou personagem literário que possa comparar com as situações pelas quais passa. Tudo isso já me faz gostar muito de Elinor, mas o que mais me faz gostar dela é a sua força. Nem a idade e nem seu físico a impedem de ser firme, enfrentando todos com ousadia, sem abaixar a cabeça nem para os vilões.


Tão ousado quanto ela é Dedo Empoeirado, meu personagem favorito na história. Não devo falar muito sobre ele para evitar spoilers, mas posso descrevê-lo como um saltimbanco sarcástico e misterioso. Dedo Empoeirado costuma ir aonde quer carregando sua marta (animal parecido com furão) de estimação na mochila. Por seu caminho, ele faz shows de malabarismo e apresentações pirotécnicas engolindo e cuspindo fogo.

Considero esse personagem o mais complexo da narrativa. O tempo todo, ele tem apenas um objetivo em mente e faz de tudo para alcançá-lo. Por ser completamente impenetrável pelos outros personagens e pelo próprio leitor, nunca é possível saber tudo o que é de seu conhecimento e se ele é alguém em quem os protagonistas devem confiar ou não.

Além da marta de estimação, Dedo Empoeirado logo encontra alguém que está disposto a acompanhá-lo aonde quer que vá. Este companheiro é Farid, um garoto árabe que sempre foi maltratado pelos criminosos para quem era obrigado a trabalhar. Por sua vivência em um ambiente hostil, é interessante observar o quanto Farid é frio diante de situações que parecem horríveis aos outros.  


Em meio aos personagens, outro ponto que não me agrada muito é a personalidade de Meggie. Ela me parece uma garota muito dependente do pai e isso se tornou cansativo para mim. Porém, com o avançar da história, observamos que Meggie vai ganhando mais autonomia. Acredito que ela possa evoluir muito ao longo da trilogia e estou esperançosa quanto a isso.

Sobre a edição, posso dizer que adoro essa capa e que ela traz muitas referências às situações da história. A fonte utilizada no texto é de tamanho agradável e o livro é dividido em capítulos acompanhados de uma epígrafe. Gostei muito dessas epígrafes, pois nelas há referências de livros clássicos que se encaixam perfeitamente com as situações vividas pelos personagens. O livro também conta com pequenas ilustrações no fim dos capítulos.






Sinopse: Viagens ao fim do mundo, criaturas fantásticas e batalhas entre o bem e o mal – o que mais um leitor poderia querer de um livro? O livro que tem tudo isso é 'O leão, a feiticeira e o guarda-roupa', escrito em 1949 por Clive Staples Lewis. Mas Lewis não parou por aí. Seis outros livros vieram depois, e, juntos, ficaram conhecidos como 'As Crônicas de Nárnia'. Nos últimos cinquenta anos, 'As Crônicas de Nárnia' transcenderam o gênero da fantasia para se tornar parte do cânone da literatura clássica. Cada um dos sete livros é uma obra-prima, atraindo o leitor para um mundo em que a magia encontra a realidade, e o resultado é um mundo ficcional que tem fascinado gerações. Esta edição apresenta todas as sete crônicas integralmente, num único volume magnífico. Os livros são apresentados de acordo com a ordem de preferência de Lewis, cada capítulo com uma ilustração da artista original, Pauline Baynes. Enganosamente simples e diretas, 'As Crônicas de Nárnia' continuam cativando os leitores com aventuras, personagens e fatos que falam a pessoas de todas as idades, mesmo cinquenta anos após terem sido publicadas pela primeira vez.



Editora: Martins Fontes | Páginas: 750 | Ano: 2018 | Preço: R$ 34,90


“O interior é muito maior que o exterior."

Esta é uma obra bastante complexa (mesmo que destinada a crianças), pois trata-se de uma edição que apresenta os sete livros que compõem As Crônicas de Nárnia, o que significa que cada história contém muitos detalhes que infelizmente não poderão ser abordados aqui. Entretanto, comentarei cada livro individualmente e farei uma síntese de coisas que me chamaram a atenção na história.

O Sobrinho do Mago
“O sobrinho do mago”, primeiro livro das crônicas, nos mostra a história de uma menina chamada Polly, vizinha de Digory, um garoto que vive com um tio bastante excêntrico e cruel. Ao descobrirem que esse homem tem um esconderijo para experiências científicas, as crianças resolvem ir até lá, e acabam encontrando anéis mágicos que as levam para outros mundos. O que gostei nesse livro foi a forma como foi abordada a criação de Nárnia e a apresentação de Aslam, o leão que é visto como um deus na narrativa.

O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa
No segundo livro, observamos que Digory está mais velho e agora é professor de quatro crianças hospedadas em sua casa devido à guerra que atinge a Inglaterra. Essas crianças são Pedro, Susana, Lúcia e Edmundo, que acabam conhecendo Nárnia ao entrarem em um guarda-roupa mágico. Lá eles lutam contra a Feiticeira Branca, que instaurou um inverno eterno no reino. Achei que a Feiticeira se mostrou muito mais vilã do que aparentava ser no primeiro livro. Além disso, a atmosfera das criaturas mágicas, principalmente representada pelo fauno Tumnos, é maravilhosa.


O Cavalo e Seu Menino
Aqui somos apresentados à Calormânia, reino vizinho de Nárnia. Shasta é um fugitivo do reino que planeja chegar à Nárnia acompanhado de seu cavalo falante. No caminho eles encontram Aravis, uma garota que cavalga uma égua e também foge da Calormânia para evitar seu casamento forçado. Os quatro se tornam amigos e resolvem seguir juntos. Gostei muito da ambientação da Calormânia, mas o que me desagradou foi o visível racismo em relação aos calormanos, que são descritos como um povo feio e cruel de pele escura, enquanto os narnianos são vistos como belos e nobres de pele clara.

Príncipe Caspian
No quarto livro, Pedro, Susana, Edmundo e Lúcia regressam à Nárnia para ajudar o príncipe Caspian a derrotar seu tio, um usurpador do trono. Entretanto, ao voltarem à Nárnia, as crianças percebem que muitos anos já haviam se passado por lá, grande parte das coisas que conheciam não existe mais e elas precisam reunir novamente as criaturas mágicas ao seu lado. Infelizmente nada me chamou muito a atenção nessa história, a não ser uma breve e assustadora aparição de um lobisomem em certo momento.

A Viagem do Peregrino da Alvorada
Neste livro, Lúcia, Edmundo e seu primo Eustáquio são mandados à Nárnia para participarem de uma viagem de navio junto ao, agora rei, Caspian. A viagem é realizada para encontrar os antigos lordes que o tio de Caspian aprisionou em diversas ilhas. Ao longo do trajeto, os tripulantes do navio passam por diferentes terras e encontram coisas inesperadas em cada uma delas. Gostei muito da forma como cada ilha foi apresentada de maneira muito criativa.


A Cadeira de Prata
No sexto livro, Eustáquio e sua amiga Jill chegam a Nárnia após se esconderem de um grupo de briguentos da escola. Aslam os orienta em uma missão para que encontrem o príncipe Rilian, desaparecido há anos após a morte de sua mãe. Nesta jornada, as crianças precisam desvendar os sinais de Aslam, passar por gigantes e seres estranhos do mundo subterrâneo. O principal motivo de eu ter gostado desse livro foi a inserção de novas criaturas mágicas, como Brejeiro, cuja personalidade é tão pessimista que o torna muito divertido.

A Última Batalha
No último livro, Eustáquio e Jill são novamente enviados à Nárnia, mas desta vez devido ao caos que se estabelece no reino. Um falso Aslam tem se apresentado diante dos narnianos e dado ordens que os colocam cada vez mais reféns de seus rivais, os calormanos. Com a invasão do inimigo sobre o reino, o atual rei de Nárnia precisa da ajuda das crianças para desmascarar o impostor. O final desse livro é algo surpreendente. Achei muito corajoso da parte do autor e realmente adorei.


É visível a presença de uma ideologia cristã na obra de Lewis. Apesar de eu não ser uma pessoa ligada a religiões, esse aspecto não me incomodou, pois minha motivação para ler o autor foi devido ao mérito que lhe é dado no meio da literatura fantástica. Acredito que esse mérito seja justo, pois a construção em torno do universo de Nárnia é encantadora e muito bem elaborada.

Sobre a questão do racismo, mesmo sendo um aspecto que não pôde passar despercebido, sabemos que em 1949 (quando o primeiro livro das crônicas foi lançado), as discussões sobre esse tema ainda não eram tão intensas como agora, o que fazia com que muitas coisas não fossem tratadas como racismo como são hoje. Por essa razão, acredito que a crítica ao racismo em obras clássicas deve considerar o contexto histórico dos autores, mas jamais ser tratada com indiferença.






Sinopse: Num mundo pós-apocalíptico, onde as pessoas não tem mais acesso à tecnologias de ponta, uma caravana leva esperança por onde passa. Os artistas são sobreviventes de guerra que tiveram seus corpos mutilados reconstruídos com complexas estruturas mecânicas.



Editora: DarkSide Books | Páginas: 311 | Ano: 2016 | Preço: R$ 29,90


“Aqueles que têm grandes desejos nascem, não são feitos.”

Li este livro no começo do ano, mas ainda o tenho na memória com carinho. Por ter curiosidade pelo contexto circense e, principalmente, por histórias com temática steampunk, esse título despertou meu interesse facilmente.

Apesar disso, minhas expectativas para a história em si não eram tão altas. Imaginei algo simples, mas me surpreendi bastante com a criatividade de Genevieve Valentine em criar um contexto tão diferente, semelhante às distopias. É bastante interessante observar as formas como esse cenário que diverge tanto do que vivemos expressa suas semelhanças de forma sutil ao longo do livro.

Vejo esse livro como uma história sem protagonista, pois o que faz com que tudo aconteça nela é o próprio circo e a interação dos personagens entre si. Com o comando do circo nas mãos de Boss, uma mulher imponente capaz de substituir partes dos corpos de seus artistas por partes de metal e torná-los mais fortes, os demais personagens a tratam com respeito e obediência.


       De início, a impressão que tive é de que Boss era uma mulher cruel que usava seus artistas como máquinas, mas logo observamos que eles a seguem por verdadeira admiração e uma leve dependência. Um dos principais personagens que demonstra essa admiração é Little George, um garoto que foi acolhido por ela e trabalha no circo como ajudante, sem uma tarefa específica. Eu diria que ele é um dos personagens principais da história, visto que é o único que aparece em capítulos narrados em primeira pessoa.

Boss, Little George e os demais integrantes do circo convivem como uma família, o que não impede que exista muita discussão entre eles. Entretanto, a verdadeira ameaça aos membros do circo, principalmente àqueles que possuem partes mecânicas constituindo seus corpos, são os homens do governo. Sendo assim, a maior parte da história se foca na insegurança que existe entre os artistas e as autoridades que governam as cidades por onde passam.

Antes de mencionar o que mais gostei no livro, também preciso comentar sobre um incômodo que tive durante a leitura. Falarei pouco sobre isso, pois poderia ser um spoiler, mas o fato é que Boss possui uma habilidade muito importante, e achei que isso não foi tão bem abordado. Senti falta de uma explicação mais prática sobre quais são as circunstâncias que permitem que a personagem utilize essa habilidade e quais são as que a impedem. Por isso, achei que o uso desse recurso ao longo do livro foi colocado apenas em situações que a autora considerou conveniente.


Entretanto, encontrei diversas coisas que me agradaram no livro. A primeira delas foi a estrutura como os capítulos foram elaborados. De início, isso me confundiu um pouco, pois há capítulos em terceira e em primeira pessoa sem que se esclareça quem está narrando a história. Mas logo é possível perceber que os capítulos em terceira pessoa podem acompanhar qualquer um dos personagens ao invés de ter um alvo específico, enquanto que os capítulos em primeira pessoa são apenas narrados por Little George.

Me surpreendi muito com a quantidade de personagens que a autora utilizou no livro e, mesmo no espaço de poucas páginas, fez com que eles apresentassem muita profundidade. De início senti dificuldade de ligar os nomes aos personagens, mas logo que as personalidades de cada um são abordadas, fica visível o quanto são únicos e bem construídos. Nenhum vilão é completamente mau. Todos os personagens apresentam uma dualidade de sentimentos, o que os torna muito interessantes.

E falando em personagens, é realmente incrível ver a quantidade de fortes personagens femininas que surgem no livro. É raro que isso aconteça, mas posso dizer que nesse livro nenhuma das mulheres da história foram representadas de forma frágil ou dependente dos homens. Gostei de todas elas, mas minha preferida é a Bird.


Por fim, não poderia falar desse livro sem comentar também sobre as lindas ilustrações que preenchem algumas de suas páginas. O trabalho de Wesley Rodrigues foi magnífico e captou muito do que eu imaginava ser a atmosfera da história. A edição em capa dura está linda, o tamanho da fonte é bom e com certeza é uma das capas mais bonitas que já vi.

Vale a pena dar uma conferida na obra, principalmente se você gosta do contexto steampunk ou quer conhecer mais sobre o gênero.